domingo, 22 de julho de 2012

Leontiev e a teoria da atividade

Leontiev é um dos personagens mais importantes para contextualizar a escola da Psicologia Sócio-histórica, já que, além de ser um de seus fundadores juntamente com Vygotsky e Luria, deu continuidade a alguns construtos de Vygotsky, desenvolvendo sua teoria na própria ex-URSS, atravessando importantes momentos políticos e se tornou um dos marcos da Psicologia Soviética.
Aleixei Nikolaievich Leontiev nasceu em 1904 e morreu em 1979, atuou durante meio século com trabalhos experimentais, defendendo a natureza sócio-histórica do psiquismo humano, sobre a influência da teoria do desenvolvimento social de Marx.
Leontiev estudou também outras áreas da vida humana, como a Pedagogia, a cultura e a personalidade. Fundou a faculdade de Psicologia de Moscou, atuou como conselheiro de diversos órgãos científicos, filosóficos e políticos; desenvolveu muitos trabalhos sobre percepção e imagem e no final de sua vida conceituou o fenômeno “efeito Lobo”, que fornece dados sobre como se formam as imagens na consciência, posteriormente esse fenômeno ficou conhecido como “efeito Leontiev”.
Leontiev foi um dos mais dedicados seguidores de Vygotsky e o auxiliou, juntamente com Luria, na formulação da nova Psicologia russa pós-revolucionária.
Verifica-se em sua teoria vários conceitos desenvolvidos por Vygotsky, como a construção histórica da relação homem-mundo e a mediação por instrumento nessa relação. Mas o que marca mesmo a sua obra é a influência de Marx. Em sua leitura, a Psicologia soviética é marxista, atribuindo aos conceitos de atividade e consciência desenvolvidos por Marx um cunho psicológico: “Compreendíamos todos que a Psicologia marxista não é uma tendência particular, não é uma escola, mas uma nova etapa histórica que representa o princípio de uma Psicologia autenticamente científica e conseqüentemente materialista”. (Leontiev, 1978)
Leontiev coloca que um traço distintivo entre o homem e os outros animais é a sua capacidade de planejar e atingir objetivos conscientemente, acredita que as atividades são formas do homem se relacionar com o mundo, traçando e perseguindo objetivos, de forma intencional, por meio de ações planejadas.
Para o autor, a atividade é a forma de transações recíprocas entre o sujeito e o objeto, com ela pode-se subjetivar o objeto pela internalização e objetivar o subjetivo como a personalidade, processo que será explicado no decorrer do trabalho, conforme forem sendo abordados os demais conceitos.
Como coloca Leontiev: “A atividade é uma unidade molecular... é a unidade da vida mediada pelo reflexo psicológico, cuja função real consiste em orientar o sujeito no mundo objetivo. Em outras palavras, atividade não é uma reação nem um conjunto de reações, senão um sistema que tem estrutura, suas transições e transformações internas, seu desenvolvimento”. (Leontiev, 1978, pp: 66-7)
As atividades humanas são um sistema que está contido nas relações sociais, no qual o trabalho ocupa o lugar central e a atividade psicológica interna do indivíduo tem sua origem na atividade externa, já que o homem encontra na sociedade os fins e motivos para sua atividade, não só o lugar onde desenvolvê-las.
Leontiev coloca que a característica básica da atividade é sua objetividade, porém em uma investigação científica é necessário pesquisar seu objeto, já que esse nem sempre fica claro. O objeto de uma atividade pode aparecer de dois modos: em uma existência independente, subordinando e modificando a atividade do sujeito; e como resultado da própria atividade, como imagem do objeto, internalizada como reflexos psíquicos. (cf. Leontiev, 1978, p. 68)
Outro ponto constituinte da atividade é a necessidade, é ela que regula e orienta a atividade concreta do sujeito em seu meio objetivo, porém o meio externo também pode criar as necessidades dos indivíduos, levando-os a agir.
As necessidades e os motivos são correlacionados com as emoções e sentimentos, eles ocupam um caráter fundamental no desenvolvimento das atividades dos sujeitos e na análise dos objetos da atividade, não havendo atividade sem motivo. Uma atividade aparentemente sem motivo é apenas uma atividade com um motivo subjetivo e objetivamente oculto.
O conceito de internalização também desempenha, na teoria de Leontiev, um papel especial no desenvolvimento nas operações internas do pensar. A internalização permite transformar objetos externos, materiais em processos que transcorrem no plano mental, na consciência se desenvolvendo, se generalizando ou reduzindo, são capazes de transcender a atividade externa. O processo de internalização origina diversos atos mentais como o pensamento que é mediado pela linguagem.
O instrumento medeia a atividade, possibilitando ao homem relacionar-se com os objetos e também com outros homens. É no instrumento que se cristalizam os procedimentos e operações.
As ações, conforme descritas por Leontiev, são processos subordinados ao um fim consciente. Os fins não são delimitados arbitrariamente, eles dão, antes de tudo, em condições objetivas e um de seus aspectos importantes ocorre na delimitação das condições para atingi-lo.
Muitos teóricos não diferenciam ações e operações, mas Leontiev marca essa distinção, defendendo que as ações estão ligadas ao fim e as operações com as condições da atividade. Os fins podem ser os mesmos, mas as condições em que se dão podem ser modificadas, alterando a composição da ação.
A atividade humana é resultado de um processo de desenvolvimento sócio-histórico e vai sendo internalizada pelo indivíduo constituindo sua consciência e influenciando sua personalidade. Leontiev coloca que a consciência individual só pode ocorrer diante de uma consciência social e da linguagem que é o seu real substrato. Assim, no processo de materialização dos homens a linguagem, que também é produzida, serve como meio de comunicação, sendo portadora dos significados elaborados socialmente.
A formação de imagens faz parte dos fenômenos da consciência, e elas se formam por uma necessidade de representação da imagem psíquica, conseqüência da atividade produtiva e laboral que distingue a condição humana.
A consciência pode estar na base da atividade, já que muitas vezes ela se constitui em um movimento real em relação à atividade.
Em contato direto com a realidade objetiva, a atividade se transforma, se enriquece e neste enriquecimento se cristaliza no produto, assim a atividade realizada é mais rica, mais verdadeira do que a consciência que a prevê, mas para que esse produto se apresente ao sujeito de forma cognitiva, deve ocorrer uma transformação, que se opera mediante ao funcionamento da linguagem.
Leontiev, assim como Vygotsky, enfatiza muito a importância da linguagem no processo de tomada de consciência frente à realidade social. Para ele, pela consciência pode se perceber as noções de dominação entre classes. Assim, a tomada de consciência também pode ser um ato político.
A consciência é composta por elementos sensoriais e Leontiev atribui a eles o modo pelo qual o sujeito representa o mundo fora da sua consciência, na realidade externa, contribuindo assim para desenvolver o sentido da realidade.
Outro elemento que Leontiev trabalha como constituído e constituinte da atividade é a personalidade, já que para ele a personalidade faz parte de um momento interno da atividade. Discutindo esse tópico Leontiev coloca em debate as várias conceituações das escolas de psicologia, colocando o conceito de personalidade como um problema psicológico. Conceitua que se deve conceber este conceito como uma nova formação psicológica que se vai constituindo por meio de relações vitais do indivíduo, tendo como base o método dialético marxista.
Para se chegar a uma concepção psicológica e autenticamente científica deve-se enfocar a característica histórico-social da personalidade, bem como, a investigação do nascimento e transformações que podem ocorrer em condições sociais concretas.
A personalidade, para Leontiev, como descrito acima, é produzida pelas relações sociais que o homem estabelece por sua atividade e se constitui como um processo bastante avançado de desenvolvimento. Leontiev descreve ainda que, se uma pessoa possui uma determinada característica ou deficiência, desenvolve suas atividades por meio dessas limitações, e sua personalidade também vai ser constituída desse modo; isto se trata de relações sociais específicas do homem que entram em sua atividade objetivada.
Outro ponto da teoria de Leontiev, que chama atenção, é sua afirmação de que as crianças pequenas não possuem personalidade. Para ele essa vai sendo constituída a partir das relações estabelecidas com o mundo e de suas atividades, primeiramente no âmbito familiar e depois em um meio social mais amplo, pois o processo de formação da personalidade supõe o desenvolvimento de formação de fins e portanto, de ações do sujeito, que a criança muito pequena não possui.
Para Leontiev a primeira base para o desenvolvimento da personalidade é a riqueza de seus vínculos com o mundo e os motivos. As necessidades e as emoções, assim como constituem a atividade também são primordiais no desenvolvimento da personalidade.
Nesse breve apanhado das idéias de Leontiev, que não teve como objetivo explorar toda a riqueza de sua obra, mas apenas expor suas idéias mais importantes, nota-se que sua visão de homem passa por três níveis distintos: o nível biológico, no qual o homem é enfocado como um ser corporal, fisiológico e natural. Em um segundo nível, que é o psicológico, o sujeito atua mediante uma atividade e por último o nível social, no qual o homem se torna executor das relações sociais objetivas do processo sócio-histórico.
Referências bibliográficas:
LEONTIEV, A. N. Actividad, conciencia y personalidad. Buenos Aires, Ed. Ciências del Hombre , 1978.
LEONTIEV, A. N. O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa, Livros Horizonte, 1978.
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