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02 abril, 2012

Sujeito e subjetividade

O conceito de sujeito é amplo, e sua abordagem sugere um estudo bastante aprofundado e minucioso. No entanto, esse subitem buscará fazer algumas reflexões pertinentes ao tema sugerido e buscará não perder sua profundidade, se atendo a explanações sólidas para fundamentar esta pesquisa.Os fundamentos da psicanálise postos por Freud trazem muitas contribuições, porém, devem ser abordadas com certo nível de criticidade, o que não descaracteriza sua fundamentação, mas possibilita uma abrangência maior dos conceitos. Como afirma Birman (1999): “O fato de que a psicanálise seja meu referencial fundamental de leitura e minha bússola teórica para viajar nas tormentas da atualidade, contudo não significa que pretendo utilizá-lo de maneira linear e aplicada, isto é, de forma cega e obtusa. Pelo contrário, minha intenção é também demonstrar como o domínio doutrinário de certas concepções vigentes no campo psicanalítico funciona como obstáculo crucial para escuta de novas formas de subjetividade que o cenário contemporâneo nos oferece”. (Rey, 2003)
Em continuidade, para Freud este sujeito traduz um sentimento de liberdade, pois é ele quem liberará o indivíduo dele mesmo. Contudo, a abordagem da sexualidade como princípio de prazer em seu caráter biológico fundamentou toda essa trajetória de novos conceitos - esta abordagem causou impacto e proporcionou discussões acaloradas para sua época. De acordo com Rey. “Freud compreende a sexualidade como desejo, mas um desejo baseado em uma pulsão orgânica que se legitima na substancialização da sexualidade na libido.” (Rey, 2003)
Sendo assim, o corpo representaria a base de sustentação na formação desse sujeito, pelo qual todas as suas experiências seriam canalizadas e conduzidas pelo princípio do prazer sexual incutidas na formação biológica de cada indivíduo. A subjetivação deste corpo frente às pulsões libidinais passa a ser encarregada de formar este sujeito. O corpo, para Freud, traz o desejo capaz de na alteridade favorecer a subjetivação. O sujeito passa a ser algo independente que se constrói por intermédio de pulsões residentes no id (Pólo instintivo e punsional da personalidade) e buscando no ego (estrutura da personalidade que se origina do Id mediante o contato com o meio externo) subsídios para manifestações do indivíduo.
As colocações de Freud merecem ser analisadas e questionadas no sentido de ampliar a concepção de construção do sujeito. Para Rey, “O corpo não é uma fonte universal de desejo; este se organiza também socialmente sobre a base das emoções experimentadas pelo sujeito em seus diferentes sistemas de relações. O corpo é um sistema histórico de relações do sujeito. Separar o prazer corporal de outras motivações de natureza social representaria a conservação da dicotomia cartesiana psique-corpo.” (Rey, 2003)
Isso significa que estreitar um pensamento do qual exclui o caráter social das construções é possibilitar um armazenamento de condutas conservadoras e positivistas, como citado anteriormente, a intenção é chegar o mais próximo de uma concepção mais elucidativa e que não fragmente o assunto.
Mais uma vez, cabe ressaltar que a teoria por Freud fundamentada merece ser reverenciada e colocada em local de destaque para tal estudo. Os pensamentos de Freud são tão enriquecedores que proporcionaram a outros estudiosos relerem suas obras e a partir daí contribuírem também com novas e importantes concepções. O francês Jacques Lacan foi um desses seguidores que trouxe sua contribuição, muito embora tenha também sido alvo de críticas por re-conceituar elementos que Freud configurou em sua teoria. Resumidamente, três conceitos básicos de sua obra são a chave para compreensão de suas idéias: o imaginário, o simbólico e a ordem real.


De uma maneira sucinta, tais conceitos apresentam as seguintes características de acordo com as definições de Rey, 2003:

• Imaginário – “O imaginário define o reino em que não existe divisão entre sujeito e objeto”. Significa dizer que nesta fase o sujeito não se diferencia do objeto de seu desejo, uma “unidade”, pois, faz com que essa separação não exista e, portanto, não consiga distinguir de sua imagem aquilo que é dele daquilo que é do outro. “O si mesmo, como produção imaginária, é fonte de fragmentação, distorção e alienação”. É nesta fase que a criança começa a estabelecer uma “ilusão narcísica”, pela qual buscará nessa relação indissolúvel entre ela (sujeito) e objeto perceber a “falta” e a incapacidade de integrar-se com ela mesma. “A Criança na medida que se identifica com a sua imagem especular, experimenta a falta, ao não poder apropriar-se de sua imagem, ao não poder experimentar em si mesmo a integração que a imagem traz consigo.”

• Simbólico – “A linguagem é um elemento essencial na definição do simbólico. Lacan coloca a configuração do psíquico e do inconsciente no nível do simbólico”. Para Lacan, a linguagem representa a base sólida de seu pensamento e através dela o sujeito poderá organizar o seu universo psíquico, compreendendo assim, ao contrário de Freud, o inconsciente como linguagem.

• Ordem Real – “O sujeito de Lacan está totalmente incapacitado para seguir o princípio da realidade, sendo um sujeito de ficção”. Neste sentido, Lacan coloca o real como algo fictício, sujeitado à linguagem, vinculado ao desejo. “No real se expressa e recicla de forma permanente um desejo que o sujeito nunca pode gratificar”. 
Embora tais explanações tenham apresentado conceitos breves sobre o assunto, é possível compreender um pouco sobre o que Lacan deixou de conhecimento sobre a constituição do sujeito. Para ele, a linguagem permite o acesso do sujeito a uma outra dimensão de realidade, construída pelo desejo e pelo anseio de ressignificações. Faz-se mister lembrar que sua obra tem outras proposições, uma dimensão maior de seus conceitos de fundamentos, no entanto, para os devidos propósitos no momento, tais conceitos foram resumidos.


Visto anteriormente duas diferentes concepções de sujeito, Freud e Lacan, convém finalizar este subitem com uma terceira abordagem não menos importante, a qual busca dar um enfoque mais contemporâneo à constituição de sujeito. “O sujeito é sujeito do pensamento, mas não de um pensamento compreendido de forma exclusiva em sua condição cognitiva, e sim e um pensamento entendido como processo de sentido, ou seja, que atua somente por meio de situações e conteúdos que implicam a emoção do sujeito.” (Rey, 2003)
Neste momento, Rey discorre de uma nova abordagem, esta por sua vez não ignora as concepções anteriores, nas revela um sujeito que busca também subsídios sociais e culturais para sua estruturação. O sujeito elabora sua subjetividade ao utilizar-se de vários aspectos, mesmo as atribuições cognitivas passam por um clivo de inconsciência pré-concebidas e instauradas na sua constituição. Segundo Elliot (1997), “O sujeito contemporâneo, em plena pós-modernidade, parece cada vez mais consciente de existência de um campo inconsciente de contingência representacional que, se é objeto de uma adequada interpretação e reflexão, pode ser usado de múltiplas maneiras na fabricação de significado e sentido”. (Rey, 2003)
Este entendimento é importante para compreensão de que neste vasto campo de estudo, muitas das considerações passadas continuam gerando novas descobertas e sendo a elas agregadas outras perspectivas de compreender a complexidade de sua formação. O sujeito contemporâneo é também alimentado por aspectos sociais e culturais, e cultiva emoções que abarcam as relações de sua realidade.

Uma visão de sujeito histórico-social traz consigo a compreensão de fatores que estão incluídos em diversos momentos do indivíduo, pois este, ao pertencer a um determinado espaço social, está também construindo condições que favoreçam sua própria condição de sujeito. Dessa maneira, percebe-se que à medida que o indivíduo se inscreve na sociedade, acrescenta um pouco mais a sua história pessoal e constitui-se cada vez mais sujeito atuante e participador de sua subjetividade.
Com essa participação efetiva do indivíduo na sociedade, sua prática social passa a ser cada vez mais desenvolvida, que requer um aprimoramento de suas expressões no sentido de estar constantemente modificando e agregando a sua formação enquanto sujeito, criando assim condições de alternâncias para que possa também se adequar a diferentes contextos sociais. “O sujeito tem uma função auto-reguladora (Morin,1980), que eu vejo não só na organização de sistemas de estratégias que lhe permitam integrar ‘zonas diferentes’ de suas práticas sociais, zonas estas que se expressão em diferentes espaços sociais e que co-existem em tempos diferentes.” (Rey, 2003)
Finalizando, a concepção de sujeito histórico social também favorece o confronto, pois por meio das condições dispostas na sociedade, este sujeito necessitará encontrar nele mesmo respaldo para se adaptar e assim se adequar da melhor maneira possível, buscando sempre sentir-se confortável para lidar consigo mesmo.
Tais momentos revelarão por hora situações de desconforto, angústia ou mesmo contentamento, no entanto são essas construções que permitirão se aproximar do ideal de perfeição assim idealizado para sua plenitude. Como cita Dreier (1999, p.34): “Em diversas formas, a participação na prática social implica elementos de compreensão, orientação e coordenação entre as pessoas, como parte de contextos sociais particulares e como viajantes por meio deles. Porém, isto, de nenhuma forma elimina a necessidade ‘do diálogo consigo mesmo’ que chamamos de reflexão. De fato, de múltiplas formas, os 

diálogos entre pessoas alimentam os diálogos intra-pessoais e vice-versa”.
Subjetividade
Dando seqüência às explanações anteriores, sujeito e subjetividade são temas que não se separam. No entanto, as diversas concepções é que tornam possíveis as diferentes formas de construir a subjetividade. Freud, como visto anteriormente, concebe o indivíduo enquanto sujeito em sua esfera biológica, resultando a construção de uma subjetividade reducionista, que isenta o caráter social de participar desta construção. “Não foi por acaso que, entre os seguidores de Freud, um dos pontos de divergência maior com o mestre fosse o lugar do social no desenvolvimento da psique, que apareceu com uma força maior naqueles autores que desenvolveram movimentos alternativos na família das teorias psicanalíticas.” (Rey, 2003)

Isso significa dizer que as concepções psicanalíticas deixaram marcas, no entanto, foram necessárias outras visões para que pudesse estar alçando novas concepções e quebrando paradigmas. A subjetividade não se restringe a um determinado conceito, e por este motivo, consegue descrever situações e traduzir os sentimentos e emoções que fazem parte de todo sujeito. Em busca de ampliar o entendimento deste conceito foi que a subjetividade social surgiu com grandes contribuições. “O conceito de subjetividade social foi introduzido em um momento histórico de busca, contradição e auge da psicologia latino-americana, que se caracterizou pela tentativa de estabelecer uma psicologia própria, comprometida com a vida e as práticas sociais em nossos países (década de 1980), o que acentuou a ênfase da na psicologia social.” (Rey, 2003)
A Identidade social de cada sujeito reflete um pouco de sua história pessoal, é neste momento que a subjetividade social traz uma grande contribuição na compreensão deste processo de construção. Cada momento passa a ser único e deve ser relido de maneira bastante específica, compreendendo que a subjetividade tem suas características próprias, peculiares a cada sujeito e/ou con


texto. Cada conhecimento individual compartilha de uma compreensão, de uma realidade singular, ou seja, o real passa a ser subjetivado à medida do conhecimento/relacionamento pessoal com o objeto desejado. A subjetividade caracteriza-se pela possibilidade dos sujeitos através das várias formas de expressão, concretizar o abstrato, conforme Rey, “Na subjetividade humana, experiências, significados e sentidos de procedências diferentes perdem sua localização no tempo e no espaço em que foram produzidos e passam a ter uma presença em configurações subjetivas diferentes, nos espaços e tempos definidos dentro da mesma configuração subjetiva na qual se integram.” (Rey, 2003)
A compreensão da subjetividade sustenta a tese de que o sujeito é muito mais do que ele pode mostrar em suas ações, transcende a sua realidade e encontra espaço em uma intimidade sublimada pela suas emoções.
A subjetividade é um coletor de informações e exerce uma função vital tocante à canalização e releitura das ações de seus sujeitos.
Referências bibliográficas:
Thomson Learning, 2003.
SIMÃO, Lívia Mathias. O outro no desenvolvimento humano. São Paulo: Ed. Pioneira Thomson Learning. 2004.
MORALES, Pedro. Relação professor-aluno – O que é e como se faz. São Paulo: Ed. Loyola.
ALVES, Rubens. Conversas com quem gosta de ensinar. São Paulo: Editora Cortez e Autores Associados, 15 ed., 1986.
SASSAKI, R. K. Inclusão: Construindo uma sociedade para todos. 3.ed. Rio de Janeiro: WVA, 1999
MORIN, Edgar (2001): Os sete saberes necessários à educação do futuro, 3.ª ed., São Paulo: Cortez.
REY, Fernando González. Sujeito e subjetividade. São Paulo: Ed. Pioneira

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